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O Buda não tinha a intenção de ser malvado quando ensinou que a vida é sofrimento. Ele estava alertando que se você procura felicidade em fenômenos impermanentes certamente irá se decepcionar. E, como resultado de não entender como a mente funciona, sem entender que não podemos confiar na nossa mente como uma grande verdade, sofremos. Sofremos nascimento – se apenas você conseguisse lembrar, não foi fácil –, nós sofremos doença, velhice e morte. Essas são as forças que não conseguimos evitar. Nós tentamos, temos grandes indústrias para tentar evitar esses sofrimentos, para aliviar essas etapas. E ainda assim, morremos.
E se você olha, isso parece natural, parece acontecer de novo, de novo e não nos surpreende. “Ah, um e outro morreu” – que surpresa! Sim, sim, é isso que vai acontecer com todos nós, e isso não significa que é perfeito, porque o que é perfeito não nasce e não morre, o que é perfeito não é improvável ou reduzível ou não construído. Tudo o que é construído irá desmoronar, o que é verdadeiramente perfeito, o que é verdadeiramente refúgio, o que é verdadeiramente seguro é o que não pode ser cortado, o que não pode ser interrompido, e é completamente vitorioso e absolutamente verdade – isso é a natureza das coisas, a essência de tudo, isso é a natureza da mente e nós chamamos a isso de Buda.
Veja bem, há algo aqui: o que é verdade é verdade, não é possível a verdade estar ausente. Se faltar, não pode ser verdade, precisa estar presente. A verdade é presente, e ainda assim não percebemos isso porque estamos tão ocupados com o eu, meu, minha, meu filho, minha casa, minha família, meus pais, minhas aspirações, minhas expectativas, minhas esperanças, meus temores – isso domina completamente a sua mente. Mas o tempo todo, a natureza absoluta perfeita nunca se moveu, nunca se foi. Isso é algo que você precisa ganhar.
Você não precisa agradar à perfeição. Você é completamente inseparável da perfeição como um todo. Mas nós não vivenciamos nossa natureza absoluta e confiamos na base intelectual como se fosse verdade. Com isso ficamos desapontados, de coração partido e solitários, lamentando: “Onde a perfeição foi parar?” É como o cubo de gelo que chora para o céu: “Onde a água foi parar? Como a água pode me abandonar, frio, congelado, duro, frágil e sozinho?” E é errado chorar. A água não deixou o cubo de gelo, ele é água, é água sob a influência do frio. O frio é removível, a água não é removível do cubo de gelo.
O que o Senhor Buda estava dizendo é que estamos congelados, estamos sob a influência do frio e o que está causando o frio é o modo como a nossa mente funciona, o modo que a nossa mente trabalha com a suposição intelectual do “eu” e, obviamente, sua extensão, o outro.
Porque “eu” sou o que conhece você, “eu” é o que chama você de você. Eu sou quem supõe quem você é. Você pode percorrer grandes distâncias para tentar explicar quem você é para mim, mas somente eu tenho o meu entendimento de você, que é tudo o que eu tenho.
Mas você é um Buda, você é a essência perfeita, essa é a verdade de você. Não é necessariamente a sua experiência de você, nem a minha experiência de você que é a verdade.
Então, pensamos: mas eu sou mais importante do que você, obviamente, é instintivo. Eu sou, e eu sou importante, você talvez seja uma pessoa legal, nós poderíamos nos dar bem, contanto que você não fique no meu caminho. Isso é o que fazemos com o “eu”.
“Talvez você possa me fazer feliz, especialmente se você é charmoso e bonitão. Nós poderíamos ser amigos, claro, se você se adequar ao meu estilo, se você mudar muito, desculpe, mas não poderei mais tê-lo na minha lista de amigos. Éramos amigos, mas viramos desconhecidos, sabe? Ele começou a fazer coisas que eu não podia tolerar mais...”
Nós aceitamos e nós rejeitamos: é isso o que o “eu” faz. A tragédia é que não seria tão ruim se funcionasse, mas não funciona porque o que o eu pode fazer somente se volta para o eu, porque não existe dois, existe apenas a sensação de dois e não entendemos que o que temos é a nossa mente, é esse o mundo que se tem, a mente, e o que a mente pode dar a você.
E se a sua mente é estreita, pequena, crítica, superior, você vai vivenciar um mundo que é pequeno, superior, crítico. E o quanto mais você vivencia um mundo como esse, mais você justifica seus atos estreitos, críticos e pequenos e pensa que você precisa lidar com isso, eu sei o que está acontecendo aqui.
E ficamos boxeando com a nossa mente. O que o Senhor Buda nos apresentou é que não entendemos a nossa mente, não entendemos o que a nossa mente faz, não entendemos quem está verdadeiramente no comando. Pensamos que outras pessoas causam o nosso sofrimento, quando na verdade é a nossa mente que causa o nosso sofrimento.
O Senhor Buda disse primeiro “a vida é sofrimento”, e então disse: “Existe uma razão” – este é o segundo ponto. Algo está criando o sofrimento, se você puder isolar o que está criando o sofrimento, você (terceiro ponto) muda o sofrimento porque descobriu o que está causando isso, você pode mudar isso e finalmente, quarto ponto, o sofrimento pode acabar. Esse é o ensinamento de Buda.
Basicamente, não acreditamos realmente em Buda, que a vida é sofrimento, ainda pensamos que é um prazer ir ao Starbucks, que existe algo que é realmente engraçado e que vale a pena. Mas o Buda não estava dizendo que você não pode se divertir, e nós concordamos com o Buda de que existe um causa para o sofrimento. Geralmente a causa é o meu marido, ou minha sogra, ou talvez algum político, fiscal do imposto de renda, viroses, ou porque está muito quente, ou muito frio, qualquer coisa.
O única momento que realmente reconhecemos que somos a causa do nosso sofrimento é quando mordemos no canto da boca – ah, sim, essa realmente entendemos. Quase todo o resto culpamos em alguém. Nós somos a cultura do culpar, e Buda diz: não existe ninguém para culpar, não existe absolutamente ninguém mais para culpar.
Bem, isso é um pouco duro para nós, é fácil culpar mas não funciona, porque quando culpamos exercitamos energias negativas. Essa pessoa é a razão do meu sofrimento, e Buda diz: Não, não é a razão pela qual você está sofrendo. Essa pessoa, na melhor das hipóteses, entregou o seu sofrimento, mas não é o motivo do seu sofrimento, existe outra causa. A pessoa é um resultado, existe uma causa que produz o sofrimento. A causa que vem com o marido não é o marido. O marido é apenas um cara que quer ser feliz, que não quer ser infeliz, que está tentando descobrir como fazer isso funcionar. Para ele, ter que lavar a louça consta como sofrimento e deve ser evitado a todo custo.
É o que as pessoas fazem, todos nós fazemos isso. De fato não somos tão diferentes, estamos tentando ser felizes, apenas abordamos isso de maneiras diferentes. Para alguém lavar louças é um prazer, isso é diferente. Os dois estão na busca da felicidade e de evitar o sofrimento, os dois estão servindo ao eu e os dois vão sofrer o frustrar das expectativas.
Então, Senhor Buda está dizendo que o problema não está nas experiência da sua vida, apesar de elas serem difíceis e que você provavelmente terá q se acostumar a isso, não pense que será fácil. Isso vai enfraquece-lo. Não é fácil, é difícil, não pela mão de nenhuma outra pessoa, mas porque estamos entrincheirados nesse sistema de servir a si mesmo.
Já criamos muitos “momentus” nessa interação entre o eu e o outro que não são realmente verdade, e essa interação entre eu e o outro tem reverberação, ação, reação, ação, reação, e somos pegos por isso.
O modo como agimos, o que acontece conosco, explica porque isso não funciona. Cada pensamento, cada palavra, cada ação é como um bumerangue. Eu tentava explicar isso para o meu filho quando ele era pequeno. Eu dizia: “Joe, é como ser um homem magnético e todo metal gruda em você: cada pensamento, cada palavra e cada ação é metal e isso gruda em você, o que você faz volta para você.
E, bom também: o que você faz volta para você. É por isso que é tão importante que aprendamos através do lama ao que aderir e ao que rejeitar, porque você quer produzir o que vai trazer felicidade para você, até mesmo se é impermanente, é melhor ter felicidade impermanente do que miséria.
Então, pelo menos você deve cultivar as causas. Mas, até mesmo que você possa aprender a produzir as causas que trazem felicidade, não é a solução. Será impermanente, o que quer que o “eu” crie pode apenas ser impermanente. Pode ser maravilhoso e pode ser bom, mas será impermanente.
O que é absolutamente essencial é entender a natureza da mente além do “eu”. Você precisa saber que bondade é o que você é, não o que você acha que é. Seu corpo é impermanente, mas sua mente não, a essência do estado desperto intrínseco não é feita e não muda. Se você tem um dia bom, ele não é feito melhor, se você tem um dia ruim, não é feito pior, e se você morre, isso é tudo o que estará lá, esse estado desperto nu.
Quando perguntei ao meu professor, Rinpoche, qual era o propósito da vida, Rinpoche disse: “O propósito da vida é se preparar para morrer. Porque tudo isso a que nos apegamos vai morrer, você precisa estar alerta”. O exemplo que ele usava era do oceano e ondas, como o intelecto da nossa mente, quem percebe a mente, a função sujeito-objeto da nossa mente são como as ondas do oceano.
“Eu sou”, diz a onda e vê a outra onda e pensa: “Eu sou pequena comparada a ela, eu preciso ir mais rápido, preciso crescer”. Ou é grande e diz: “Olha, eu sou melhor do que ela, e vamos onda a onda, algumas ondas indo bem, algumas ondas atravessando umas as outras, algumas grandes, algumas pequenas, algumas nada além de marolas – que triste, apenas marolas -, mas existe o momento em que a onda percebe onde está indo e que está indo para a praia. Ela pode ver esse final, não dá para ir além da praia. Ela pode ver a cara do precipício, ela é uma memória esperando para acontecer. Você pode imaginar a onda pedalando para trás? E ela morre lá, não importa se é grande, se é pequena, se é nada além de uma marola, ela morre ali.
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